comunicação apresentada na conferência CAT, Centro Cultural de Belém: Miguel Carvalhais, RevDesign.pt
"The commercial landscape will overtake all that was once a potentially public space." — Natalie Bookchin (Homework project)
A internet é um meio de informação desenformada (ou desinformada) em que de certa forma reina o caos sobre o acesso a essa mesma informação. Não nos lembramos de ver um directório ou um motor de pesquisa totalmente actualizado nem a experiência dos broken-links nos é estranha. Está claro que se o meio não é regulamentado — o que é bom — estas situações são obviamente inevitáveis e, como tal, fazem parte do quotidiano do meio. Infelizmente, cada vez mais as premissas do meio — da acção no meio — são as da publicidade e do comercial, fazendo com que os conteúdos sejam oferecidos não como objectivo primário de um site mas sim como isco para atrair hits contabilizáveis e convertíveis em vendas de publicidade. Desta forma, um espaço não é criado e posteriormente suportado por publicidade, mas antes criado para se rentabilizar publicitariamente.
Nunca se pôde controlar tão bem o alcance e os resultados práticos da publicidade como na web, o que pode criar uma tirania de controle e orientação dos conteúdos de um site, tal como acontece noutros meios — veja-se o caso das audiências em tempo-real na televisão brasileira e os resultados prácticos provocados por esta possibilidade.
Esperemos que o meio continue a ser livre e público, acessível a baixos custos, o que permitirá, a par da explosão dos eCommerce, eBusiness e restantes eDerivados, a manutenção de um espaço permanente de actividade desprovida de intuitos comerciais.
Continuamente assistimos à evolução tecnológica, versões novas do Director, Dreamweaver e Flash todos os anos, ferramentas novas todos os dias, cada qual com a promessa de ser a "ultimate tool", a produtora do trabalho mais fácil, mais lucrativo, enfim, mais tudo… O Flash passou de técnica experimental a um "standard" usado pelos sites mais institucionais, gerando uma série de respostas mais ou menos padronizadas onde quer que seja utilizado.
A exposição MyCity realizada no Rio de Janeiro no final de 1999 e já em 2000 em Barcelona, compilando sob uma mesma temática projectos de origens tão diversas como a América do Norte ou a Ásia, países industrializados e países em vias de desenvolvimento, provou que pelo menos existe uma relativa universalidade ao nível das ferramentas. Estas, talvez pela sua novidade e pela pouca maturidade que os seus utilizadores têm na sua relação com elas enquanto instrumentos de trabalho, talvez pelo acesso fácil que se tem ao trabalho produzido por outros e pelos modelos que se criam periodicamente e que muitos seguem, talvez pelas respostas mais imediatas que as ferramentas fornecem ou pelas novas capacidades da última versão, fazem com que a universalidade das ferramentas crie uma estética, também ela universal, um look Macromedia.
No entanto o Mycity revelou (entre toda a uniformidade), alguns projectos mais ambiciosos, reflexo de toda uma diversidade cultural, e também aqueles que integram uma vaga de designers que procura "dissecar" a tecnologia, ultrapassar o fogo-de-artifício dessa mesma tecnologia, os botões com sombras, os rollovers, as animações gratuitas e ultrapassar a camada superficial da internet, com projectos cada vez mais low-rez, cada vez mais bitmap, cada vez menos anti-aliased. Mas talvez estas não sejam as descrições mais correctas, por serem muito gráficas e ainda à superfície…
Há algum tempo, em resposta a uma crítica de um leitor que perguntava quando é que o seu site seria redesenhado, Rudy Vanderlans da Emigré afirmou que, sendo aquele site a base da estrutura comercial da Emigré, eles tinham demorado muito tempo a afinar os seus processos e funcionalidades, desenvolvendo um trabalho demorado e rigoroso que não podiam comprometer com um redesign. No fundo, aquilo que o leitor pretendia e cuja falta estranhava era um redesign, tão habitual em qualquer projecto online. Aquilo que é visível no site da Emigré é uma constância do projecto gráfico, há muitos anos definido e nunca reformulado no sentido de uma ruptura com o passado. Mas a Emigré não colecciona hits, não oferece portanto conteúdos novos diariamente, para que os visitantes recorrentes continuem a aceder à sua página sem outro propósito que não seja, ao fim e ao cabo, surgirem nas estatísticas diárias de acessos. Os conteúdos e serviços oferecidos pelo site da Emigré funcionam perfeitamente naquele site, bem estruturado, conciso e muito funcional, desde há (pelo menos) cinco anos e o site tem-se provado uma ferramenta valiosa nos processos quotidianos da empresa.
Sabemos contudo que a Emigré trabalha num nicho, de mercado e de audiência.
O grande público da Internet (como é frequentemente referida na publicidade e nos outros media) — ou da WorldWideWeb, que é no fundo, a par do correio electrónico o que genericamente mais se usa, é um público ainda neófito, desinformado e muito sujeito a manipulação e falsa publicidade. São exemplos disso a "Internet no seu telemóvel" ou o "acesso gratuito" à mesma.
A prazo, o mesmo público que agora pensa que a Internet "começa" no Sapo ou no Clix, há-de aprender que a default home-page do seu browser pode ser configurada, que aquele browser que vem no CD de instalação do provider ou que é instalado com o sistema operativo não é o único software disponível e que a Internet pode ser muito mais útil e enriquecedora do que hoje em dia pode parecer. A seu tempo, este público começará a exigir da Internet mais do que as media giants estão preparadas para fornecer, ou talvez não, talvez a Internet siga o mesmo rumo da televisão, cuja utilização extra-comercial é ínfima. Por outro lado, graças ao investimento financeiro reduzido que a Internet exige, à relativamente simples burocracia associada, face à televisão e outros meios, haverá sempre largura de banda para todos, para qualquer tipo de intervenção. Mas, haverá público para estas intervenções? Ou será que se cumprirão as premonições mais pessimistas, como a de Natalie Bookchin do projecto Homework, quando augura que a paisagem comercial irá dominar tudo aquilo que foi em tempos um espaço público em potencial?
A Internet é um meio que exige utilizadores activos, intervenientes, não meros espectadores. Os utilizadores, sobretudo aqueles que foram formados e alimentados com a televisão não estão talvez ainda preparados para cumprir esse papel activo. Felizmente, por motivações várias, que necessariamente incluem também as económicas, os governos europeus e da generalidade dos países ditos ocidentais, parecem apostados em investir na "Internet" e nas "tecnologias da informação", aqui, naturalmente entre aspas. Por um lado entregam computadores e acessos às escolas, por outro apoiam empresas e distribuem capital. O resultado será acima de tudo um público mais (in)formado, a prazo, é certo, mas, de qualquer modo, mais exigente e participativo, um público que compreenderá o meio e que conseguirá ultrapassar a barreira entre a posição de espectador ou leitor e a de utilizador ou participante.
Dado que existe um protocolo, seria de supor que os browsers, construídos sobre esse protocolo respeitassem a vontade de standartização sugerida pelo W3C com as suas periódicas definições. No entanto, a aguerrida vontade comercial, as famosas "browser wars" e a irresponsabilidade resultaram numa "torre de babel" online, em que as plataformas se incompabilizam, as versões e os browsers se incompatibilizam e em que já ninguém sabe o que é html bem programado. Ter que lidar com algumas imponderabilidades como a escolha tipográfica do utilizador ou outras preferências de sistema ou a gama de pc vs mac é algo que ainda se suporta — se bem que seja um mal indesejável. Ter que lidar com bugs é uma fatalidade, mas ter que lidar com incompatibilidades provocadas é algo porque ninguém devia ter que passar.
Em 1995 (ano em que pela primeira vez experimentamos o meio), este era imprevisível e pouco controlável. Entretanto uma série de factores levaram a que ele se mascarasse de previsível e controlável (CSS, DHTML, etc…) continuando a manter a "aleatoriedade" e imprevisibilidade nos resultados finais. A adopção e massificação do Flash começou a permitir a concepção de produtos mais controláveis e mais uma vez ofereceu a esperança do WYSIWYG, mas os sistemas operativos e os browsers ainda não permitem uma exploração tão grande quanto seria desejável dos media informáticos, do computador e do ecran, em suma, da interface de comunicação.
O Browser estabeleceu-se como plataforma da Web, o protocolo foi empurrado para segundo plano e se se afirmaram a simplicidade e a facilidade dos editores por objectos, perdeu-se talvez a "visão interna" do(s) site(s).
Buscamos hoje em dia a imprevisibilidade de novo, ao trabalhar ferramentas cada vez mais normalizadas, num meio em que se a linguagem de programação e os recursos técnicos não estão totalmente standartizados, começam talvez a dar algumas respostas aos problemas.
Uma vez que as estruturas de produção não estão ainda organizadas segundo modelos universais, ao designer cumpre não um papel meramente gráfico, mas também o de produtor e de autor, tendo que em algumas (não poucas) situações preencher papeis que não lhe competiam numa cadeia de trabalho em meios tradicionais. Pela sua complexidade, e também pela falta de modelos, as próprias equipas de trabalho se devem reorganizar no sentido em que designers, editores, engenheiros e cliente devem trabalhar cada vez mais lado a lado, partilhando e criando informação conjuntamente. Não podemos falar de trabalho tão faseado ou tão estanque como acontece em alguns meios offline porque a produção deve ser questionada permanentemente na fase de projecto, porque o projecto já está muitas vezes produzido e porque a maqueta já é algumas vezes o próprio produto final.
Depois das maquetas impressas cada vez mais próximas do trabalho final — e quantas vezes quase melhores —, depois das impressoras a cores, do scanner e de todas as ferramentas informáticas, dos computadores tão potentes que nos permitem fazer a edição das artes finais no atelier, depois do computer-to-plate que elimina a necessidade dos montadores de película, depois, deixamos a impressão e o domínio da comunicação física. Deixamos a gráfica e passamos não só a arte-finalizar mas também a produzir os produtos finais.
O Design torna-se assim, curiosamente, menos industrial, se bem que as ferramentas são de um apuro tecnológico extremo, inimaginável há alguns anos, o processo de trabalho torna-se mais artesanal, pessoal ou limitado a grupos pequenos de artesãos/designers/engenheiros.
Ao trabalhar para a Web não produzimos multiplos industriais mas sim objectos únicos, consultáveis simultaneamente por várias pessoas é certo, mas revestidos do mesmo caracter singular que caracteriza uma obra plástica. Se qualquer um dos elementos do público de alguma forma interferir com a peça e a alterar ou danificar, o resultado dessa acção é visível a qualquer um dos outros que em simultâneo ou posteriormente a acedam. Da mesma forma, se o autor, insatisfeito com a peça lhe introduzir modificações, transforma-a indelevelmente para o futuro. O meio torna-se líquido e não mais físico. Aberto e não fechado. Se já na perspectiva dos meios offline, podemos argumentar que as peças de design não são fechadas, não só pelo seu discurso ou pelas relações contextuais dinâmicas, mas acima de tudo porque, tendo que lidar com prazos e deadlines, tempos de produção mais ou menos longos, cada peça apenas é considerada acabada quando o tempo assim o determina — e esta é uma experiência que nos é ainda recorrente — , na perspectiva dos meios online, os prazos e deadlines ainda lá estão, os tempos de produção também, embora agora se possa tornar mais difícil a distinção entre design e produção, mas as peças tornam-se abertas em absoluto, pela facilidade de edição e manipulação dos conteúdos, pela facilidade de estabelecer relações dinâmicas entre o projecto e os seus leitores / utilizadores, por nos ser possível integrar, desintegrar e reintegrar informação continuamente.
O espaço da Web é em si mesmo dinâmico e interactivo. Dinâmico porque mutável e mutante, multi-linguístico e multi-cultural. Interactivo, quanto mais não seja, porque não-linear e fragmentado, porque não existe um índice de conteúdos ou uma estrutura de informação pré-definida.
Enquanto ferramentas comunicacionais, os Web sites ainda reflectem a forte influência que os meios escritos tiveram na concepção e estruturação dos seus layouts e arquitectura. O som é integrado, o vídeo é integrado, alguma interactividade é integrada, mas o afastamento em relação aos outros meios ainda não é tão grande quanto seria desejável. Ainda temos genericamente um jornal ou uma televisão ou uma rádio ou quanto muito um CD-Rom. Isto porque a informação trabalhada (e por informação entenda-se todo o conteúdo) ainda o é numa perspectiva de "comunicação individual de massas", ou seja, os produtos são estruturados para que a comunicação seja feita em simultâneo com um grande número de destinatários, mas com cada um deles individualmente, em paralelo… Resta-nos ainda descobrir a chave para que estes espaços electrónicos se possam também aproximar dos espaços reais, para que a interacção não exista só no eixo utilizador/site mas se crie também um segundo eixo utilizador/utilizadores ou até site/sites.
No seu projecto "Mount Fuji" — entretanto offline — para o REMEDIproject, Catherina Fake apresentava-nos uma imagem do Monte Fuji, suportada por um ditado zen japonês que afirmava que se todos os dias batermos suavemente no monte Fuji com um lenço de seda, o conseguiremos, com tempo, erodir completamente. De cada vez que alguém acedia ao seu projecto, um pixel da imagem desaparecia (o que se considerarmos uma imagem de 300 x 500 pixel exige 150.000 acessos, o que, parecendo pouco em alguns contextos, não o será seguramente para o REMEDI). Deste modo todos os leitores/espectadores/utilizadores — qual o melhor termo a usar ainda é uma incógnita — contribuem colaborativamente para a evolução e construção do projecto. O propósito original do projecto era o tempo, uma afirmação sobre o "lightning-fast" que toda a gente espera dos meios electrónicos, mas aquilo que resultou efectivamente deste projecto foi um estudo sobre o tempo e o espaço, sobre as relações que os utilizadores de um site estabelecem entre si.
Claro que existem as Chat-Rooms, o IRC, os Instant Messengers e até o eMail, mas qualquer um destes meios apenas cumpre uma parte do processo comunicativo, nunca aquilo que constituirá a chave do problema.
Este eixo comunicacional não se pode só resumir a enviar apreciações sobre livros para o site da Amazon, músicas para o MP3.com ou votações para o site do Euro2000, mas estes já são bons princípios.
Os novos eixos de comunicação talvez necessitem de uma anulação do browser como o conhecemos e do consequente descartamento das analogias ainda vigentes à página impressa ou mesmo ao multimedia interactivo offline (serão as analogias análogas?) e de novos espaços comunicacionais, novas regras e novas ferramentas.
O mote lançado pelo nome do REMEDI: redesigning the medium through discovery — redesenhando o meio pela descoberta, é uma das nossas orientações, no sentido em que o meio existe mas está ainda em formação, em descoberta. Não podemos falar nem de ferramentas nem de soluções estabelecidas. Temos o protocolo e as diferentes necessidades suscitadas por cada cliente, e para estas temos que encontrar as respostas, não só formais mas também — e acima de tudo — estruturais, que nos conduzam à melhor utilização do meio.
Não podemos pensar o meio electrónico, digital de uma forma análoga à qual pensamos o meio offline, em que os produtos cumprem algumas funções mais ou menos padronizadas, mais ou menos caracterizadas e limitadas. Um catálogo, uma brochura, um poster, um livro, uma vez pensados para o espaço digital, embora possam também cumprir estas funções, podem ir muito mais longe na comunicação estabelecida, cumprir funções muito mais elaboradas.
Para nós a descoberta começou em 1995 com a criação da versão online da revista [up]arte, o primeiro contacto com o meio e a sua linguagem estabeleceu-se e alguma familiaridade começou desde então a ser criada. Mas o meio evoluiu e a nossa familiaridade com o meio começou a levar mais longe aquilo que dele esperamos. Sabendo que também o nosso trabalho ajuda a definir o meio, ele não será então físico, estático, mas será também produto de uma relação fluída com o meio e será intrínseco ao mesmo, procurando descobrir onde é que o meio nos leva, procurando mais do que escolher caminhos, abrir novos caminhos.
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